Quinta-feira, Maio 19, 2011

Falta que faz

O calor enquanto o frio bate na janela; a voz quando o silêncio é solitário; o olhar quando meus olhos procuram os seus; a brisa do mar quando a vontade de respirar fundo é inevitável; as fotografias quando a lembrança traz saudades; pensar no jardim, no fogão à lenha e nos móveis em madeira escura; ficar brincando com as palavras e inventando versos infinitos; elucubrar sobre o que seria possível com um bilhete premiado de loteria; pedir ao outro que conte "coisas"; ouvir e ser escutado. Ah, amor... Que falta você me faz!

Segunda-feira, Abril 18, 2011

Ao amor / "Tous les matins du monde sont sans retour"

Ser tudo em todos e nada ao mesmo tempo. Uma única existência separada em cada qual, com seu próprio invólucro e seus próprios sonhos. Ser em si e estar em outro, viver separados, permanecer unidos, e respirar alguém. Diferentes e iguais. O amor traduz o êxtase, qualquer coisa entre a luz e a vida, a brisa do mar e as estrelas do céu. É a sua voz em outra garganta, é a sua face em outro rosto, é o seu gesto em outras mãos, é a sua saudade em outro coração. É o entardecer sem que haja noite, e é o amanhecer sem que haja amanhã. Amar é renovar-se.

Domingo, Abril 03, 2011

A INSPIRAÇÃO INEXISTE ou "LES INSPIRÉS, CHOSE BIZARRE, MÉCONNAISSENT L'INSPIRATION"*

Detesto admitir, mas desta vez faltou-me inspiração. Poderia inventar uns motivos, mas o verdadeiro é o menos nobre deles: a preguiça. Mas não preguiça assim, por estar preguiçosa apenas. Aquela preguiça safada, preguiça mental, preguiça em pensar que se está com preguiça. Sim, fiquei com preguiça de escrever. Sim, estou em período de provas na faculdade. Sim, estou sem tempo. Sim, deveria estar estudando. Sim, tenho ficado nervosa com a minha falta de inspiração. Sim, há bastante tempo não escrevo nada no Cebola Roxa. Sim, nem tudo é perfeito. Sim, as verdades têm que ser ditas, mesmo que deixem lesões. Sim, adoro a vida e me sinto feliz. Sim, mesmo adorando a vida e sendo feliz, ainda estou sem inspiração. Sim, gostaria de estar escrevendo coisas mil que passam pela minha cabeça, mas tudo parece desaparecer quando tento começar. Sim, o trânsito da lua em Escorpião pode estar me influenciando negativamente. Sim, essas coisas são bobagens. Sim, o "primo Ernesto" está por chegar. Sim, é muito chato ficar lendo palavras repetidas. Sim, é tarde da noite, ou da manhã, como preferir. Sim, estou com sono. Sim, é melhor que eu vá dormir. Sim, gostaria de poder deletar este post e escrever uma coisa da qual gostasse mais. Sim, meu sono está lascivamente me assediando a parar de escrever e simplesmente deitar em minha cama quentinha. Sim, odeio que as pessoas imaginem uma sinfonia de grilos embalando minha falta de inspiração. Sim, isso é passageiro. Sim, o sono está ficando insuportável. Sim, eu fico deveras chata quando estou com sono. Sim, eu vou dormir. Sim, a inspiração inexiste. Sim, a inspiração não precede a escrita, mas é tão-somente a alegria em fazê-lo. Sim, na verdade a falta de inspiração é um nome mais enfeitado para a preguiça. Não, não é a primeira vez que fico com preguiça, nem será a última. Ainda bem. E não é que, não mais que de repente, me curei da preguiça?

* frase de Victor Hugo.

Domingo, Dezembro 20, 2009

Girassol de chuva

Os raios de sol iluminam
as páginas pálidas à minha frente.
Sua ausência
é como o verão sem mar
o calor sem brisa
o vento sem frio
o amor platônico
insosso
abstrato
sem sentido.
Tudo inspira imensidão.
Molha as folhas a chuva
que guardam o beijo
da sua doce ausência
pretérita.
Entre o sol e o papel
o sabor
as lágrimas
o desejo
e a saudade de um tempo
nunca antes vivido.
A tinta que ora empresta cor
era nada senão
a vontade desvairada
o ímpeto tácito
que têm as nuvens
carregadas e negras
ao avistarem teus lábios
carentes de gotas molhadas.
O sol empresta a vida
mas a chuva renova a alma.

Segunda-feira, Dezembro 07, 2009

Viver

Vivo me perguntando
Se eu sou em mim assim
Descobri que o meu sonho
Está longe de ter fim

Quero a rede na varanda
Ver os pássaros a cantar
Plantar tulipas cor lavanda
Viver a sede de amar

Sempre quis a vida em mim ideal
Hoje penso, na verdade
Ela tem sido sensacional
Tenho amigos que me gostam
Desvendei a cara-metade
As pessoas que me importam
Trazem-me só felicidade

O que posso mais querer
Além de continuar a sonhar
E ter a certeza que crer
É o começo para alcançar

O amor incondicional
A paz absoluta
E a vida, meu bem
Eterna aventura

Terça-feira, Dezembro 01, 2009

Infância

Tenho saudade do tempo em que era criança. Dos dias quentes e tranqüilos ao seu lado. Da brisa abafada e confortante. Da sensação de estar bem de modo perene e incondicional. Saudades de algo que não me lembro, mas que certamente está perdido em algum lugar da minha memória. Saudade dolorida e magoada, como se houvessem me roubado o melhor dos anos. Saudade que causa um quê de autopiedade, mas que é sincera, ingênua e intensa. Saudade do tempo em que nada me consumia. De quando minha garganta não impedia a voz. Do existir sem medo da reprimenda, do abandono, da solidão. De ser apenas criança. Saudade de uma vida que nunca tive, do que poderia ter sido ou do que gostaria que fosse. Saudade daqueles que foram e da ausência dos que ainda estão. Saudade da aventura, da possibilidade de fazer diferente, da liberdade do ir-e-vir e do sonho da conquista do amanhã. Saudade melancólica e apegada a um passado cuja existência é duvidosa. Saudade que sufoca, alimenta e cura, de forma paradoxal e inexorável. Saudade. Apenas saudade.

Quinta-feira, Setembro 10, 2009

A flâmula do amor eterno

Olho para frente, minha face à barlavento. O mar é azul intenso, esverdeado ao brilho do sol. A brisa é fresca e generosa. O sentimento é transcedental. Poderia voar. Iço as velas na esperança de um dia alcançar as nuvens do céu. A cada marola, a lua fosca parece ficar mais perto e o espaço infinito mais presente. Há momentos em que a vida nos presenteia com o breve sabor do amor verdadeiro. É aí que a marcha da embarcação se põe para vante, deixando no passado a orla vã, mutável, fraca, errônea e impaciente. É aí que o Amor se firma como destino constante, como cura para o medo de partir e como estandarte inabalável, direcionando o leme em meio à imensidão do oceano sem fim.

Sábado, Agosto 08, 2009

A escrita

Escrever é desejar a leitura. Busco incessantemente a união das palavras que irão revelar aquele mundo desconhecido. Aquele que quero encontrar. Quando leio, preciso antes escrever. Uma palavrinha ou duas, para tudo ficar mais claro. Pois quando escrevo, me encontro. E quando me encontro, navego. Navego para dentro do nada, em busca do tudo. É então que ancoro meu barco reticente e mergulho em meio às palavras que um dia deixei à deriva...

Domingo, Maio 25, 2008

Marulho de significados

Suas palavras foram como o vento batendo no velame, conduzindo a embarcação avante. Foram como o dia de sol e de poucas nuvens, quando se deseja fitar o horizonte sem a preocupação de onde se vai. Trouxeram-me a paz. Não importam mais as tempestades que forçam o barco à deriva. O galhardete ostenta a convicção de quem conduz a nau pelo oceano de algodão. Da proa se vê o nosso destino inevitável. E a cada ondear longínquo, o silêncio se quebra, renovando o rutilar das estrelas que iluminam o caminho infinito do amanhã.

Segunda-feira, Maio 05, 2008

O Espelho Tem Faces ou Pieces of Me

Tenho cabelos castanhos
minha pele é branca e sensível
meu nariz é como o do meu pai
e meus olhos como os de minha mãe.
Meus lábios estão geralmente sorrindo
minhas unhas quebram facilmente
sou egoísta desde criança
e escrevo quando preciso me encontrar.
Tomo chuva de vez em quando.
Já tive crises de amidalite horríveis.
Costumava soprar dentes-de-leão no jardim.
Gosto do paladar do gengibre
da cor do oceano
e do cheiro do jasmim.
Já fiz loucuras, já tive paixões mal-resolvidas
já fui infiel em relacionamentos, já menti e errei
já amei em segredo, já amei sem medidas
já levei alguns foras, mas também já os dei.
Arrependo-me só do que deixei de fazer
ou do que não pude dizer e queria.
Não tenho mais minhas amídalas.
Mas meus cabelos continuam castanhos
minha pele ainda é sensível
minhas unhas ainda quebram
e provavelmente um dia não vou mais gostar
de tomar chuva
ou de sentir o cheiro do jasmim
ou o gosto do gengibre.
Mas talvez eu comece a soprar dentes-de-leão novamente...

Sábado, Fevereiro 09, 2008

Verdades passageiras

Acho dentro de mim
que lido bem com palavras.
Não posso dizer o mesmo de medos,
muito menos de fantasmas.
Gosto muito de idéias,
mas não das mirabolantes.
Não considero as impossíveis,
muito menos as conflitantes.
Hoje falo com propriedade
daquilo que não me apetece.
Pode ser que amanhã, no entanto,
tudo o que digo vire blefe.

Terça-feira, Agosto 21, 2007

Ao Novo Mundo

A maré parece contrária, mas o vento é meu amigo. Os peixes são meus guias e o paraíso é uma visão constante. Nunca cogitei a possibilidade de volta. Nunca desejei, nem um segundo, qualquer tipo de volta. Isso não seria possível. Minha alma já modificou-se. Passaria a vida olhando ao horizonte e vendo o que transcende aos olhos. Meu medo é nosso, vejo isso agora. Transformemos esse medo em força. Transformemos a força em realizações. A viagem apenas iniciou-se. Há um mundo ainda inexplorado. Minhas pernas são suas e caminho com seus pés. Essa viagem, meu bem, só poderá ser feita a quatro meias. Formemos nossa aliança. Afinal, o príncipio da reciprocidade permeia o conceito de dádiva. E o que temos é uma dádiva: Amor.

Segunda-feira, Agosto 06, 2007

A Ilha Desconhecida

Não mediu esforços para ir em busca da ilha desconhecida. Mas se é desconhecida, como poderia saber que existe? Sabia, de algum modo sabia. Seu coração, apesar de cansado, desiludido, ainda guardava aquele fundinho de esperança. Quem diria. Dizia a si mesmo, tinha dias, que havia desistido. Que tal coisa era tão fantástica que só poderia ser imaginação. Sua vida, monotonia. Inércia. Ânsia. Mesmice. Solidão, embora cercada de gente. Um dia saiu de casa. A chuva era torrencial. Espantosamente, corriam-lhe os pingos e nada sentia. Havia se tornado um papel em branco. Sua vida, um mero grafite cinzento. Foi assim que decidiu vez por todas que iria achar a tal ilha. E nem que fosse apenas em sonho. Navegar seria preciso. Não tinha barco, não tinha tripulação, apenas a coragem de cem mil exércitos. Enfrentou medos terríveis, mas persistiu com convicção. Conseguiu um barco. Resolveu aprender o ofício dos marujos. Nesse meio-tempo um certo alguém resolveu que também procurava a ilha desconhecida. Resolveu, não, pois sabia dentro de si. Havia apenas esquecido por algum tempo dessa verdade. Lembrou-se dela. Iluminou-se sua face de seu pensamento. O lugar era o mesmo. Duas pessoas diferentes o buscavam. Um sonho em comum. Isso os uniu e os mantém unidos. O barco em que navegam, a ilha desconhecida. Fez-se ao mar em busca de si mesma.

Domingo, Abril 15, 2007

No tronco daquela árvore

Minha asinha brilhante quebrou, na encruzilhada entre a luz amarela do sol e o escuro prateado do universo. Os floquinhos de algodão do céu branco de nuvens foram a solução para tamanho desastre. Quando lá pousei, dei-me conta da travessura que meu amor tinha feito. Na terceira árvore alva, à esquerda da lua de marfim, estavam as estrelinhas fujonas da constelação de Delfim. Haviam saído fogosas da boca de um enorme dragão para formar a mais bela das palavras: amor. E, abaixo dessas quatro letrinhas, os dentes cintilantes dos anjinhos sorridentes denunciavam o autor da traquinagem: o periquitinho verde esteve aqui. Foi quando ele apareceu serelepe, com uma fita de plumas-crepe no bico. E saímos voando de lá alegres, em direção ao céu azul infinito.

Sexta-feira, Março 09, 2007

Eu a vejo

O rosto dela é um mapa multicolorido, de onde se vê as montanhas do topo do mundo. Tudo à volta dela brilha, flutua e paira no ar. Ela transborda uma beleza fantástica, uma energia pura e contagiante. Ela exala tranquilidade e força, suavidade e vigorosidade, delicadeza e imponência. A presença dela lhe deixa mudo. É cativante. Ela poderia estar na capa da revista, na tela da televisão, nas ondas do rádio, nas rimas do poeta, no sonho inesquecível. Ela emerge inexplicavemente por detrás das páginas do livro, iluminando as palavras como se fossem luas sedentas pelos raios do sol. Ela preenche todo o espaço vazio, como se tudo voltasse a ser preto-e-branco. De repente me dou conta de que é isso que quero ser. Ela. Ela está olhando nos meus olhos. Ela me faz sentir como um anjo em uma torre, pronto para percorrer o mundo a bordo das mais belas asas. Ela sorri quando saio. Mais uma vez a deixo no espelho, à espera do momento em que tornarei seus sonhos realidade.

Terça-feira, Fevereiro 27, 2007

A caderneta

Sou pequena
mas minhas asas flutuam
leves e infinitas.
Minha pele reflete o céu azul.
E meus cabelos
escondem as estrelas
de todo o universo.
Rabisco em seu caderno
pois desejo o teu beijo.
Seja o que for, esteja certo:
Meus lábios cereja
tão-somente
desejam repousar nos seus
há de eterno.

Sexta-feira, Janeiro 12, 2007

Sobre algo que é surpreendentemente inexplicável e apaixonante

Algumas coisas conseguimos explicar de forma racional e verberada. Outras, não. Amizade é este último caso. Pelo menos é o que eu acho. Consigo explicar, a meu modo, o porquê das palavras que insisto em usar. Explico até o momento em que elas me faltam. E às vezes faltam mesmo. Faltam, como neste momento, em que minha garganta se fecha, os meus olhos enchem-se de lágrimas e o meu coração bate mais forte. Mas daí entram outras palavras. Aquelas que não têm letras. Aquelas que qualquer um entende, mas ninguém explica. Aquelas cuja linguagem é desconhecida, mas cuja sintaxe todos dominam. Neste momento, me faltam palavras. No entanto, me sobram sentimentos. Amor é um deles. Paixão também, mas quero falar aqui do amor, que é perene e pacientemente intenso. E que se presta à amizade verdadeira. O amor se revela de muitas maneiras. Através das palavras também. Mas, como elas estão em falta para esta que vos escreve, digo apenas uma coisa: amigo "é" (e ponto), porque "ser" é para sempre (não é maravilhoso poder falar enigmaticamente quando as palavras nos faltam?). A todos os meus amigos, mais do que minhas palavras, dedico o meu amor. Obrigada e feliz 2007.

Quarta-feira, Dezembro 06, 2006

Como conquistar uma sagitariana

Forte. Linda. Intrépida. Graciosa. Aberta. Meiga. Independente. Generosa. Impetuosa. Admirável. Surpreendente. Sua presença é mágica. Seu olhar, cativante. Suas palavras são doces, mas às vezes melindram por serem singelamente francas. Não prenda demais. Agarre de leve. Seja sincero, aberto, honesto. Ela não gosta de pré-conceitos, tampouco de pré-julgamentos. Não seja muito expansivo, mas não aja de maneira muito tímida. Seja amável, mas intenso. Seja, acima de tudo, companheiro. Surpreenda-a. Sempre e de forma elegante. E nunca esqueça de celebrar. Ela adora uma festa. Beije-a de modo teatral. Abrace-a arrebatadoramente. Manifeste seus sentimentos de maneira esplendorosa. Nunca esqueça de dar um toque donairoso a tudo isso. Ela respira glamour em todos os momentos. A vida para ela, e para os que a cercam, transforma-se, a cada segundo, em puro encanto: absolutamente fascinante.

Terça-feira, Outubro 31, 2006

O porquê OU Why OR Lindo balão azul

Quem é fã de cinema deve ter desconfiado. Ou ao menos considerado uma possibilidade. Diversas vezes me perguntaram de onde vinha essa utilização frenética da conjunção alternativa nos títulos de meus posts. Na esperança boba de que alguém pudesse ser curioso a ponto de querer adivinhar, acabei por não responder. Não por chatice ou esquisitice, mas porque não queria aprisionar ninguém. Aprisionar no sentido de limitar. Na minha humilde opinião, ao se revelar o significado de algo, quando há uma possibilidade infinita de significados, limita-se a leitura. A alma vê aquilo que o dedo aponta. Mas isso é discussão para outra ocasião. Agora estou aqui para revelar o porquê do OU ou OR. Stanley Kubrick. Um dos diretores que mais gosto. Um filme Fantástico. Doutor Fantástico. Ou, ainda, em inglês, "Dr. Strangelove". Mas o título do filme não pára por aí. Vai além: "Dr. Strangelove OR How I learned to stop worrying and love the bomb". Pronto. Minha mania de conjunção alternativa vem daí. E agora? Agora nada. Você imagina o quê bem entender. Eu imagino o quê eu bem entender. Eu escrevo. Você lê. Ou vice-versa. Eu pego carona em uma cauda de cometa. Você vê a Via Láctea. Ou não. E nós voltamos para casa em um lindo balão azul.

Terça-feira, Setembro 26, 2006

Suspiro OU Stuck in reverse OU Fix you

Você está agitado. Nada cessa. O mundo ao seu redor está explodindo. Mas você pára. É como se tudo voasse lentamente. É como se uma música começasse a tocar e todos os barulhos da vida pós-moderna sumissem. Um solo de guitarra. Uma voz estremecida. Um nó na garganta. Você olha para o céu. Está cinza. Um pássaro branco voa em sua direção, lentamente. Você olha o rosto das pessoas. Estão todos congelados. Você derruba uma lágrima congelada. Ela cai no chão e quebra. A música acaba. Os ruídos desagradáveis voltam. Você grita. Muito alto. Tudo está acelerado. Você fecha os olhos. Abre-os. O dia já passou. Você está dentro de uma banheira quentinha. O som do piano ao fundo. Suave. Você relaxa. Está no abrigo da sua casa. Daquela que você chama de lar. Uma pessoa aparece em sua frente. Parece familiar. Seus olhos são conhecidos. Ela sorri. Você retribui. Ela se aproxima. Beija docemente sua testa. Você se enche de júbilo. É aquela pessoa. Você derruba mais uma lágrima. Desta vez, ela se mistura à água quente que lhe envolve. O amor cura. E manifesta-se nos gestos mais pequenos.

Quinta-feira, Setembro 08, 2005

A planta

A terra à sua volta está seca como palha. Crise de abstinência. Procura desesperada no céu alguma nuvem cinzenta. Tudo azul. Começa a fibrilar. Suas folhas definham lentamente. Sente o calor subir do chão, queimando-lhe o delicado caule. Estica o pescoço esperando insistentemente um raio que lhe traga boas-novas. Um pássaro voa e pinga-lhe uma gota. A chuva está próxima. Não cabe em si. Delira. A tempestade finalmente cai. O êxtase cobre seu verde. A fumaça sobe, dando lugar à sensação molhada e fresca. Suspira tranquila. Não há maior vício que a própria existência.

Terça-feira, Agosto 02, 2005

Ansiedade

Passa o dia todo com a mente concentradíssima em algo que poderia ser, queria que fosse ou um dia quem sabe seja. Olha para o relógio. A perna balança nos momentos mais inoportunos. O estômago parece ter enfrentado um exército de limões ácidos. A boca seca com frequência. O bafo azedo e a aparência anêmica parecem fazer parte do cotidiano. Os dentes deixam marcas nos lábios como se estivessem famintos. A garganta aperta e a fala às vezes é difícil. Os olhos enchem-se de lágrimas ao menor sinal de tristeza. As mãos suam. A sensibilidade está à flor da pele o tempo todo. O coração acelera-se desesperado. O sono demora a vir. O cansaço é insistente ao longo do dia. A esperança e a desesperança alternam-se facilmente. O suspiro profundo é a primeira palavra do dia. E a última.

Terça-feira, Julho 12, 2005

Falta que faz

O calor enquanto o frio bate na janela; a voz quando o silêncio é solitário; o olhar quando meus olhos procuram os seus; a brisa do mar quando a vontade de respirar fundo é inevitável; as fotografias quando a lembrança traz saudades; pensar no jardim, no fogão à lenha e nos móveis em madeira escura; ficar brincando com as palavras e inventando versos infinitos; elucubrar sobre o que seria possível com um bilhete premiado de loteria; pedir ao outro que conte "coisas"; ouvir e ser escutado. Ah, amor... Que falta você me faz!

Segunda-feira, Junho 06, 2005

Soneto do arraial amoroso

Festa junina, pipoca, quadrilha
Pé-de-moleque, pinhão e quindim
Ver você sorrindo, maravilha
Quanta saudade de você sinto em mim

Algodão-doce, quentão, chocolate
Ficar abraçado em frente à fogueira
Milho verde, paçoca, conhaque
Dançar com você, namorar a noite inteira

Canjica, queijadinha, maçã do amor
Festa de São João é um primor
Deixa qualquer um acalorado

Tiro ao alvo, pau-de-sebo, pescaria
Brincar de ser criança é alegria
Mas felicidade é ter você do meu lado

Terça-feira, Maio 31, 2005

35 mm

A máquina era manual, sem quaisquer daqueles automatismos modernos. O filme, preto-e-branco. As fotografias eram tiradas preferencialmente à aurora ou ao poente, minutos antes (ou depois - dependendo do horário) do chamado lusco-fusco. As nuances de gris, inúmeras e encantadoras. As imagens mostravam-se charmosas, com um toque de saudade atemporal. Procurava um porquê secreto, um algo pretensamente inacreditável. Uma vez, na calada da noite - por insistência alheia ou por acaso do destino - a tal ilha desconhecida deixou-se fotografar. Estranhamente, o negativo revelou o azul intenso do mar à sua volta. O filme P&B agora matizava-se com a luz de outras lentes. As suas. Você empresta cores aos meus dias. As escalas de cinza são interessantes. Fascinantes, até. Mas apenas o colorido se firma após a fronteira. E a cumplicidade, que antes era fundamento, torna-se, nesse ponto, inexorável. E deliciosa.

Segunda-feira, Maio 23, 2005

Travesseiro

Você está dormindo. Sonhando como um anjo. A respiração está tranqüila, profunda. Seu corpo leve como uma pluma, coberto e quentinho. Você passeia, aconchegante, pelo universo do pensamento. De repente, tem aqueles espasmos de quando se está dormindo. Sua mão contrai e você nota o travesseiro respirar. Respirar? Abaixo dela um tórax que vai e vem. Para cima e para baixo, lentamente. Seu ouvido escuta batidas de coração. Sua testa quase toca o queixo, e seu ombro parece encaixar-se à axila. Abre os olhos. Você está deitado. Você mexe os dedos novamente. Parece sentir a pressão que seus dedos fazem. Dá um sorriso. O amor é inusitado e surpreendente. Juntos, dormem, como se um fossem.

Quinta-feira, Maio 05, 2005

Da recalcada vindita

Às vezes queria sentar-lhe bofetões na cara, para liberar as mágoas que ainda guardava. Queria lhe fazer perguntas cretinas, melindrá-lo, bramir-lhe alguns impropérios. Fazer com que a lamúria estulta desaparecesse. E depois disso, iria deixá-lo. Isso não é hilário? Ora, cruzes, amava-o loucamente! Pois bem, de fato: o amor é um contentamento descontente.

Segunda-feira, Abril 25, 2005

Soneto da infância agora

Brincar de pipa, pular, dar risada
Ficar com sede, beber limonada
Comer pipoca, chocolate, sorvete
Voar na rede, cantar, pintar o sete

Sentir o sol, a brisa calminha
Ficar sentado, naquela preguicinha
Bancar o malandro, dar um belo cochilo
De noite na cama, ouvir o cantar do grilo

Contos, fábulas e histórias
Aventuras, duelos e vitórias
Heróis, mocinhas e pirlimpimpim

Na face infante, o sorriso alegre
Sentir-se criança a alma enaltece
Tudo é encanto sem ter fim

Terça-feira, Abril 12, 2005

Rotina

Abre os olhos. Levanta. Escova os dentes. Lava o rosto. Veste-se. Sai. Trabalha. Muito. Lê. Fala. Escreve. Pensa. Produz. Estuda. Volta para casa. Almoça. Alguns minutos antes de voltar ao trabalho, deita-se na rede. Seu travesseiro embala o sono tranquilo ao ritmo cardíaco. Paz. Sensação de plenitude. E quem iria imaginar que isso faz parte da rotina??

Terça-feira, Março 15, 2005

A liberdade existe no amor

Quero passar o dia viajando em sua mente. Ouvir aquilo que você não disse. Ver as coisas que você veria. Seus pensamentos se formando e saindo por seus lábios. Seus olhos cheios de música. Seu sorriso que revela o sentimento. Eu sou sua, você é meu. Não há limites em meu peito para o seu coração. Minhas asas voam através de suas palavras. Só há perda quando você vai embora. O amor é atemporal. Independente do espaço. A razão ao nosso lado. A lógica a nosso favor. A subjetividade que nos desperta. Por detrás do barulho, o sussurro. Éramos estranhos ao milagre que nos acolheu. A procura abstrata encerrou-se. Enfim, amor, a liberdade.